sua mente tem poder

 

É hora de conhecer e botar em prática essa técnica cada vez mais prestigiada, que trabalha a atenção no presente e muda a forma de encarar a rotina

 

 

No fim dos anos 1970, na esteira das primeiras investigações científicas sobre os efeitos da meditação na saúde, o biólogo americano Jon Kabat-Zinn, da Universidade de Massachusetts, começou a ensinar técnicas contemplativas para pessoas com dor crônica nas costas e na cabeça. Assim nascia o seu Programa de Redução de Estresse Baseado em Mindfulness (MBSR, na sigla em inglês).O experimento, cujos achados foram divulgados em 1982, foi o único naquele ano a mencionar esse termo, traduzido para o português como “atenção plena”. Quem iria prever que, 35 anos mais tarde, o interesse pela prática viraria um fenômeno? Só em 2016 foram publicadas 667 pesquisas com o método, algumas em periódicos altamente respeitados pela comunidade acadêmica – elas avaliam, entre outras coisas, seus efeitos no bem-estar psíquico e na proteção cardiovascular.“Em comparação a outras áreas do conhecimento, os trabalhos com mindfulness ainda estão no começo, mas já existem revisões e estudos comparativos com resultados consideráveis”, contextualiza o médico Marcelo Demarzo, coordenador do Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção de Saúde, da Universidade Federal de São Paulo. Não é por menos que a empolgação já pulou os muros da ciência. Mindfulness está cada vez mais pop. Prova disso são os aplicativos para celular e os livros a respeito na lista dos mais vendidos.A técnica tem um quê de meditação, mas, a rigor, se refere a um estado mental de concentração no presente, sem julgar os pensamentos que brotam inevitavelmente. Outra característica é que, embora Kabat-Zinn tenha se inspirado na cultura zen-budista, o mindfulness se desvincula de aspectos religiosos. A bem da verdade, os princípios de atenção plena são compartilhados pela maioria das filosofias antigas e tradições espirituais. “O mindfulness possui múltiplas origens, todas legítimas”, diz o psicólogo Tiago Tatton, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E hoje presta serviço do monge ao executivo.

 

Como incorporar o mindfulness na rotina

 

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(Ilustrações: Ana Cossermelli/SAÚDE é Vital)

Ao respirar

A mente tende a divagar, afastando a nossa atenção do corpo. Quando focamos no entra-e-sai do ar (não precisa controlar, é só observar mesmo), corpo e mente se conectam, nos trazendo de volta para o momento presente.

Ao caminhar

Pode ser no local de trabalho, em casa ou na rua. A âncora para trazer a consciência ao presente não é o trajeto propriamente, mas o fato de andar com consciência e atenção nas passadas.

Ao tomar banho

Esta aí um ambiente perfeitamente seguro para a prática. Em vez de se ocupar pensando na lista de afazeres ou falando sozinho, aproveite para notar seus movimentos e sensações, como a água em contato com a Pele.

 

 

 

Retiro mental

 

Programas formais de mindfulness, como o próprio MBSR criado pelo pai do método, geralmente duram dois meses e incluem um encontro semanal de duas horas, além de exercícios diários para fazer em casa. E a medicina vem se debruçando sobre o impacto deles na saúde.Uma das atuações de destaque, como o nome do protocolo sugere, é o controle do estresse. Essa palavrinha, que martela nosso cotidiano, nada mais é que uma adaptação do organismo a uma mudança – se a reação é exagerada ou constante, porém, se transforma em uma agressão ao corpo. “Mindfulness é uma ferramenta para gerenciar melhor os efeitos do agente estressor”, resume o psicobiólogo Ricardo Monezi, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.Do ponto de vista da saúde mental, é um instrumento útil para o desenvolvimento de duas competências: resiliência e coping ou enfrentamento, que são as habilidades de se adaptar e de lidar com as adversidades. Não quer dizer que você vai evitar os problemas, mas é possível preparar a mente para atravessá-los de maneira inteligente.“Bioquimicamente, há uma redução na liberação do hormônio adrenocorticotrófico, o que regula a produção do cortisol, uma das principais substâncias relacionadas ao estresse”, descreve Monezi. Por meio de ações conscientes, a prática nos faz sair do piloto automático e induz uma resposta de relaxamento.

“A mente está sempre trabalhando. Quando não se tem uma tarefa específica, ela se enreda em um discurso interno interminável”, escrevem Marcelo Demarzo e o psiquiatra espanhol Javier García Campayo no livro Manual Prático Mindfulness (Editora Palas Athena).

Estudiosos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, calculam que quase metade do tempo que passamos acordados é gasto em pura dispersão. A proposta do mindfulness é que, ao tomar consciência disso, deixemos de ser vítimas de um looping mental involuntário. Um circuito que muitas vezes fica pulando de preocupação em preocupação – e é capaz de nos deixar na maior fadiga e depressão.

 

Exercícios para fazer em casa

 

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(Ilustrações: Ana Cossermelli/SAÚDE é Vital)

Foco nas mãos

Eis um exercício formal. Sente-se de maneira confortável, feche os olhos e mantenha a atenção nas sensações das mãos – como elas são cheias de terminações nervosas, é fácil perceber o que se passa ali.

Foco na comida

Outro experimento tradicional de mindfulness consiste em comer uma uva passa com o máximo de atenção no processo. Olhe, toque, cheire, perceba cada detalhe antes de levar a fruta à boca e saboreá-la.

Foco na postura

No livro A Arte de Sentar, o monge zen-budista Thich Nhat Hanh ensina: sente-se de uma maneira com que possa desfrutar desse ato – relaxado, com a mente desperta, calma e límpida. Parece simples, mas exige prática.

 

 

Cientificamente comprovado

 

A neurociência tem colhido algumas das evidências que mais impulsionam o respeito ao mindfulness e a sua popularização. “Ao analisar o cérebro de meditadores experientes, já foram observadas diferenças na densidade da substância cinzenta”, relata a bióloga Elisa Kozasa, do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, na capital paulista.O que isso quer dizer? “Acredita-se que esse achado esteja relacionado a um aumento nas sinapses, as conexões entre os neurônios”, completa. Mais: práticas meditativas como o mindfulness estão sendo associadas a um fenômeno chamado neuroplasticidade, a capacidade de a massa cinzenta se adaptar a novos estímulos e situações. É o que possibilita a células nervosas saudáveis assumirem novas funções quando um acidente vascular cerebral destrói um grupo de neurônios, por exemplo.Agora, uma questão que não quer calar: mindfulness é meditação? “Na verdade, dizemos que essas técnicas são facilitadoras da meditação, que coloca o indivíduo em contato com toda a sua experiência no momento do presente”, esclarece a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil. Dessa perspectiva, incluir exercícios de mindfulness no dia a dia não é a mesma coisa que se dedicar rigorosamente à meditação por anos a fio, como aquele povo estudado nos experimentos mencionados por Elisa.Classificações à parte, é importante ressaltar que mindfulness não opera milagres. Os benefícios dependem de disciplina e tempo de prática. “Não adianta achar que tudo vai se transformar em oito semanas, sem mudar o estilo de vida como um todo”, argumenta a pesquisadora do Einstein. A grande “revolução mindfulness”, como nomeou a revista americana Time em 2014, parece estar em devolver às pessoas sua parcela de responsabilidade pela própria saúde. Adotar as técnicas de atenção plena equivale a englobar a atividade física na rotina – demanda força de vontade, disposição e empenho.

 

Como lidar com as distrações

 

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(Ilustrações: Ana Cossermelli/SAÚDE é Vital)

Classifique

Dê um nome aos pensamentos e às emoções que surgirem. Assim, você retoma o distanciamento necessário para observá-los sem embarcar neles. Identifique mentalmente: “pensamento”, “memória”, “preocupação”…

Oi, obrigado, tchau

Se rotular apenas não está surtindo efeito, tente trocar por uma dessas palavras. Cada vez que um pensamento ou emoção se manifesta, saúde-o, agradeça ou simplesmente se despeça dele.

Pedras no lago

Imagine-se à beira de um lago com água cristalina. Cada pensamento equivale a atirar uma pedra nele, revolvendo a terra do fundo e turvando a superfície. Quando a mente acalma, a água volta a clarear.

 

 

A ascensão do método

 

Toda essa popularização do mindfulness desperta certa preocupação dos especialistas por ser uma via de mão dupla. De um lado, permite que milhares de pessoas tenham acesso e tirem proveito da prática, ganhando qualidade de vida. De outro, abre as portas para uma versão industrializada e, às vezes, até charlatã do método.Hoje já se vê por aí: tem gente vendendo um pacote como solução para todos os males. A questão foi debatida no último Encontro Internacional de Mindfulness, em São Paulo. Para aparar as arestas científicas em torno do assunto e garantir a eficácia de suas indicações terapêuticas, os estudiosos também discutiram a necessidade de definir melhor o conceito e sua aplicação na prática. “Isso é importante para mensurar com precisão e de forma isolada o real impacto do mindfulness na saúde”, acredita Tatton.Outro tema que gera apreensão entre os entendidos é a ética no uso do mindfulness. Isso ganha dimensão nesses tempos em que a técnica tem sido aplicada no ambiente de trabalho a fim de aumentar a produtividade. Citado no encontro, o monge budista Matthieu Ricard teria feito a seguinte comparação para alertar a respeito: um atirador também precisa de calma, atenção e concentração no presente para acertar o tiro.O que não se pode perder de vista é que o mindfulness deveria ser positivo não só para quem o pratica mas também para o mundo à sua volta. Nas tradições nas quais a técnica bebe, meditar faz parte de um conjunto de preceitos como compaixão e dedicação com o próximo.

Incorporar os princípios mindfulness pressupõe uma mudança na forma de se ver e atuar no mundo. E é por isso que, ao contrário de outras ondas, que uma hora deságuam e somem na areia, se acredita que o método vem para ficar como um recurso que nos ajuda a viver e socializar melhor. Monges budistas, iogues indianos, filósofos gregos e outros meditadores já testaram… E você está convidado a fazer o mesmo – com os ajustes que pedem sua rotina. Feche os olhos, respire e foque no aqui e agora.

 

A técnica ao longo da vida

 

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(Ilustrações: Ana Cossermelli//SAÚDE é Vital)

Na escola

Aplicada em sala de aula, a atenção plena reduz a agressividade e melhora a socialização entre os alunos. Segundo um levantamento da Fundação David Lynch, nos Estados Unidos, os níveis de estresse chegam a diminuir 40%.

No trabalho

Como aumenta o foco e reduz a tensão, o mindfulness não demorou a ocupar o ambiente corporativo, onde geralmente é oferecido em programas de bem-estar. O Google, por exemplo, tem um grupo diário de prática.

Na gestação

Pesquisadores das Universidades de Wisconsin-Madison e da Califórnia (EUA) concluíram que técnicas de mindfulness melhoram a experiência das mulheres ao dar à luz e minimizam sintomas de depressão pós-parto.

 

 

Os poderes do mindfulness

 

O poder de espantar a tensão

Uma pessoa que se atrasa para um compromisso de trabalho constata: “Estou atrasada”. Uma pessoa ansiosa, na mesma situação, antecipa uma catástrofe: “Vou perder meu emprego, vai ser horrível”. “Com mindfulness, você aprende a reconhecer que isso é só um pensamento”, explica a psicóloga Marcia Epstein, que coordena o curso Mindfulness e Compaixão do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo.

A ideia é observar a experiência sem ser afetado pelo que está por vir. Não é fácil no começo, mas a prática conduz a um estado que nos blinda do estresse e da ansiedade, algo particularmente vantajoso se considerarmos a quantidade de problemas que o hábito de ruminar preocupações desencadeia. “Sabemos que a repetição de pensamentos negativos não é apenas consequência, mas também causa da depressão”, afirma o psiquiatra Paul Bernard, do Centro de Mindfulness da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Para combater a epidemia dessa doença, que atingirá 350 milhões de pessoas no mundo só em 2017, os britânicos apostam na Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT), já aplicada em seu sistema público de saúde. Em um estudo tocado ali, 71% dos pacientes reduziram o uso de medicamentos antidepressivos. “O programa também se mostrou eficiente em casos de recaída”, nota Bernard, que apresentou um simpósio no último Encontro Internacional de Mindfulness, recém-ocorrido em São Paulo.

O bê-á-bá

Mindfulness é um estado de consciência e percepção: todos nós temos, mas ele pode (e deve) ser treinado

A base

Tudo começa com intenção e atenção. Sentado em posição confortável, você se propõe a focar em algo, como a respiração ou uma sensação tátil.

O mecanismo

A atitude é o que faz a diferença. É preciso estar aberto à experiência e deixar de lado os julgamentos prévios. Observe com curiosidade, sem expectativas.

A consequência

Com o tempo, o resultado é o que os estudiosos chamam de equanimidade, uma sabedoria interna que permite agir sem se identificar com os dramas mentais.

A evolução

O mindfulness trabalha a capacidade de observar os próprios pensamentos, processo conhecido como metacognição. Mas só com a prática regular dá para chegar lá.

O poder de não se julgar

Não é preciso ser cientista para saber que o estado mental rege muito do nosso comportamento à mesa. Pois esse reflexo tem sido alvo de estratégias de mindfulness tanto para ajudar na perda de peso como para socorrer casos de compulsão alimentar, anorexia e bulimia. A proposta mais conhecida vem do Programa de Consciência Alimentar Baseado em Mindfulness (MB-EAT), o mindful eating, que preconiza uma ressignificação com a comida.

O lance aqui é dedicar atenção (de verdade) a esse ato que garante nossa sobrevivência: comer. Só que sem julgamentos, de fora ou de dentro. Não se deve pensar nesse modelo como uma nova dieta, mas numa mudança de postura diante das escolhas e exageros alimentares. “Emagrecer será uma consequência”, diz a nutricionista Manoela Figueiredo, do Instituto de Nutrição Comportamental, em São Paulo.

Essa reconexão consigo – e escudo contra modismos ou padrões que a sociedade impõe – é a arma usada contra os transtornos alimentares associados à imagem corporal. Katya Stübing, pesquisadora da Enfermaria de Comportamentos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, testou um programa de oito sessões específico para esses casos. Constatou que a técnica reduz níveis de ansiedade e depressão e propicia uma relação mais saudável com o prato e o espelho. “Por vezes o corpo tende à cura, mas nós nem sempre o ajudamos. Ao regular a atenção e as emoções, o mindfulness cria condições para que o organismo se recupere”, afirma Katya.

O poder de se alimentar melhor

“As pessoas têm comido com uma carga de culpa muito grande”, observa Manoela Figueiredo. É uma paranoia que patrocina a compulsão alimentar. Isso porque encoraja o “efeito já que…”: já que você vai comer algo que não deve, que tal aproveitar o momento para abusar? “O que o mindful eating promove é um resgate dos sinais internos de fome e apetite”, defende a nutricionista.

É uma espécie de reconexão com um conhecimento intuitivo que permite perceber, por exemplo, quando estamos saciados – algo que varia bastante de um indivíduo para outro. Quando um atleta questiona a nutricionista Larissa Aguiar, que trabalha no São Paulo Futebol Clube, se pode comer brigadeiro antes da partida, ela devolve: “Não sei, você pode?”.

A ideia é que, gradualmente, os jogadores mesmos percebam o que é mais adequado e saibam administrar a vontade de comer impulsionada por emoções ou pressões externas. Nessa linha, o método também nos ajuda a identificar quem está acionando a fome: é o estômago mesmo ou são os olhos, o nariz ou a mente? A toada do mindfulness vai em direção contrária ao que apregoam as dietas restritivas, apoiadas na autocrítica constante e na sensação de fracasso quando as metas não são cumpridas.

O sucesso depende, portanto, de ter consciência que não se trata de um plano com começo, meio e fim e requer um gerenciamento das expectativas. Ou seja, o mindfulness ensina a aliar o autocontrole à coisa mais gostosa que existe, o prazer.

Para uma refeição plenamente atenta

Alguns conselhos do mindful eating, que ajuda a ter melhores escolhas à mesa – e a não abusar

Sente-se

Nada de almoçar em pé, no carro, correndo de um lugar para outro. Sentar nos faz lembrar que é preciso parar. E não ficar fazendo outras coisas em conjunto.

Observe

Tanto o aroma, a textura e o sabor dos alimentos como as suas próprias sensações e sentimentos. Durante a refeição, faça uma autoanálise: de zero a dez, qual é o seu grau de saciedade?

Concentre-se

Nem é preciso dizer que as tecnologias são a maior fonte de distração. Desligue a TV e coloque o celular no modo silencioso – de preferência, longe da mesa.

Desacelere

A pressa é um caminho para a desatenção. Uma dica para diminuir o ritmo é comer com a mão não dominante – a esquerda, se você é destro, ou a direita, se é canhoto.

Só coma

Tenha foco exclusivo na refeição e deixe o resto para depois. Procure estar envolvido com tudo o que acontece à mesa, sem deixar os pensamentos passearem ou reféns de aflições.

O poder de viver mais (e feliz)

É de se perder de vista o número de potenciais aplicações do mindfulness não só na prevenção mas como elemento coadjuvante no controle de doenças crônicas. O assunto tem visitado, com cada vez mais destaque, congressos de oncologia, neurologia e cardiologia. “Ainda existe uma resistência a esse tipo de abordagem, mas ela já foi bem maior”, avalia o médico Mário Borba, do Grupo de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Multiplicam-se os indícios de que a prática – sobretudo quando orientada por um profissional capacitado – melhora o padrão de sono e até mesmo os níveis de pressão arterial. Dá pra dizer que mindfulness (ou meditação) é pré-requisito para quem quer ampliar sua expectativa de vida. Palavra de Prêmio Nobel de medicina. “Pessoas que tendem a concentrar mais suas mentes no que estão fazendo têm telômeros mais longos que aquelas cujas mentes divagam mais”, revela a americana Elizabeth Blackburn, que recebeu a honraria em 2009.

Foi ela quem descortinou o elo entre o comprimento dos telômeros – a extremidade dos cromossomos das nossas células -, o papel de uma enzima chamada telomerase na proteção dessas estruturas e a longevidade. Um experimento com o programa de mindfulness MBSR mostrou que os praticantes tiveram um aumento de 17% nos níveis dessa enzima antienvelhecimento. “O foco mental é uma habilidade que qualquer pessoa pode cultivar. Tudo que você precisa é praticar”, afirma a Prêmio Nobel.

A mente muda, o corpo responde

Além dos efeitos psíquicos, as práticas meditativas têm repercussões fisiológicas

Melhora o sono

Ao avaliar a eficácia de mindfulness em pacientes com câncer, notou-se que o método também aprimorava o estado de humor e a qualidade do sono. Um estudo recente constatou esse tipo de efeito especialmente em gente acima de 55 anos.

Protege o coração

Existem evidências de que a prática de atenção plena regula a frequência cardíaca, reduz processos inflamatórios e baixa a pressão arterial, fatores que auxiliam a controlar a hipertensão e prevenir os problemas cardiovasculares.

Alivia as dores

Desde que Kabat-Zinn desenvolveu o primeiro programa estruturado, em 1979, a atenção plena é usada para tratar condições como fibromialgia, lombalgia e artrite. Com a prática, há uma diminuição da intensidade da dor e de outras limitações ligadas a ela.

 

Fonte: Saúde É Vital – Abril

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O que leva às compras por impulso – e como educar a mente para fugir delas

 

Bolsas de comprasGETTY IMAGES | Comprar pode melhorar o humor, segundo um estudo publicado em revista científica

 

Poucas sensações são tão prazerosas quanto a de uma compra por impulso.

Comprar pode melhorar o humor, segundo um estudo publicado na revista científica Psychology and Marketing, e gera em nosso cérebro um efeito semelhante ao sentido por usuários de drogas.

Uma pesquisa feita em 2016 com mais de mil adultos nos Estados Unidos revelou que 96% deles disseram ter comprado algo para fazê-los sentir melhor.

Mas os benefícios da “terapia da compra” geralmente duram pouco e podem gerar efeitos colaterais negativos a longo prazo.

Emoções negativas podem levar à perda da autoestima, e isso frequentemente acaba incentivando as pessoas a comprar quando se sentem deprimidas. A contrapartida: essas mesmas emoções negativas acabam voltando, em forma de remorso e culpa, se comprarmos mais do que devemos ou do que planejamos.

 

Terapia focada em compaixão

Mas há algumas formas lidar com essa impulsividade sem se endividar no cartão de crédito ou mergulhar numa espiral descendente de tristeza.

“Ao comprar impulsivamente estamos na verdade tentando controlar nossas emoções”, afirma Joanne Corrigan, psicóloga clínica especializada em terapia focada em compaixão e baseada em Sydney, na Austrália.

Trata-se de um tipo de psicoterapia voltada para ajudar pessoas com problemas de saúde mental relacionados à vergonha e à autocrítica.

“Não gostamos de emoções angustiantes ou desconfortáveis. Então, fazemos coisas de curta duração para nos sentirmos bem naquele momento”, explica Corrigan.

Segundo estudos, quando nos sentimos deprimidos ou aflitos, nossa capacidade de autocontrole diminui, aumentando a probabilidade de tomarmos decisões erradas. A tristeza nos leva ter pensamentos mais imediatistas e um desejo por uma recompensa imediata à custa de maiores ganhos futuro.

 

Mulheres se abraçandoGETTY IMAGES | Segundo estudos, quando nos sentimos deprimidos ou aflitos, nossa capacidade de autocontrole diminui, aumentando a probabilidade de tomarmos decisões erradas

 

Angústia míope

Esse fenômeno foi batizado como “angústia míope” por Jennifer Lerner, professora de psicologia da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e por suas colegas Ye Li e Elke Weber, da Universidade de Columbia, em um artigo sobre o assunto.

Mas se podemos entender por que queremos comprar coisas quando estamos deprimidos, e sabemos que comprar nos faz sentir bem, poderíamos enganar nossos cérebros de modo a desencadear sentimentos positivos sem ter de gastar dinheiro?

Corrigan diz que sim. Se pudermos motivar nosso “cérebro passional” – a parte que acalma sentimentos de ansiedade – então não precisamos dar vazão ao impulso e buscarmos esses pequenos estímulos prazerosos de curta duração.

“Quando estamos ansiosos, nosso cérebro libera adrenalina, cortisol e dopamina, mas você pode reduzir os níveis dessas substâncias ao ativar a parte do cérebro que libera endorfina e oxitocina, e você vai acabar reagindo de forma diferente”, diz ela.

 

Homem pensativoGETTY IMAGES | Autocontrole é chave para combater impulso para comprar quando estamos deprimidos

 

Autocontrole

Segundo Robert Frank, economista da Universidade de Cornell, nos EUA, a chave para combater o impulso para comprar quando estamos deprimidos é o autocontrole.

Ele cita o trabalho do psicólogo Walter Mischel, da Universidade de Stanford, que realizou na década de 60 o “experimento do marshmallow”, a fim de pesquisar sobre psicologia infantil e gratificação retardada.

O objetivo era analisar o autocontrole de crianças ao oferecer entre uma pequena recompensa imediata ou duas pequenas recompensas se elas esperassem por curto período de tempo.

Estudos posteriores descobriram que as crianças que estavam dispostas a esperar mais tempo pelas recompensas tendiam a obter melhores pontuações ao longo da vida, seja em testes cognitivos, seja até mesmo no IMC (Índice de Massa Corporal).

Assim, na opinião de Frank, para atingir uma sensação de bem-estar mais duradoura, precisamos ir além do impulso da gratificação imediata.

“Você precisa ter uma visão de longo prazo do que realmente vale a pena, mas esse é um ponto que as pessoas têm muita dificuldade para entender: dar peso suficiente a coisas que acontecem não agora, mas no futuro.”

Para muitas pessoas, a impulsividade dificulta a reflexão, a lógica e o autocontrole. Apesar disso, a psicóloga Corrigan defende que temos os instrumentos necessários para controlar tais impulsos.

Segundo ela, nossos cérebros estão equipados com o que precisamos para nos sentir contentes e felizes se focarmos em sentimentos de gratidão e compaixão, sem ter de recorrer a nenhuma compra.

 

Conexões neuraisGETTY IMAGES | Para especialista, nossos cérebros estão equipados com o que precisamos para nos sentir contentes e felizes se focarmos em sentimentos de gratidão e compaixão

 

Sentir-se grato

David DeSteno, professor de psicologia na Universidade de Northeastern em Boston, passou décadas pesquisando os efeitos das emoções positivas no processo decisório. Sua pesquisa indica que sentir-se simplesmente agracecido pode mudar a forma como agimos.

Em seu Social Emotions Lab (Laboratório de Emoções Sociais), DeSteno deu aos participantes a opção entre escolher receber US$ 30 (R$ 94) imediatamente ou US$ 70 (R$ 220) em três semanas.

Segundo ele, quando se sentiam agradecidos, os voluntários eram capazes de sobrepor o desejo por gratificação imediata e escolher a segunda opção.

Além disso, ao acompanhar o grupo por algumas semanas, DeSteno concluiu que aqueles que se sentiram agradecidos com mais frequência tinham maior capacidade de resistir a compras impulsivas e também demonstraram maior senso de autocontrole.

“Quando você se sente agradecido, não apenas isso o ajuda a resistir a vontade de fazer uma compra impulsiva, mas também o deixa se sentir bem da mesma forma que comprar algo. Então, trata-se de uma experiência prazerosa que também lhe permite valorizar o futuro e ter maior autocontrole”, explica ele.

Pode ser tão simples quanto pensar em alguma coisa pela qual você se sente grato, independentemente do que seja, reforça o especialista.

Mas focar nas mesmas coisas, ressalva, significa reduzir seu poder influência.

Em vez disso, DeSteno aconselha refletir sobre coisas pequenas que acontecem com você: “alguém que lhe cedeu a vez numa fila, alguém que lhe fez um gesto de generosidade”.

Ajudar os outros, como parar o que você está fazendo para colaborar com um colega, reforça esse ciclo de gratidão, defende o especialista.

 

O poder do altruísmo

Mas se, apesar de tudo isso, você ainda sente uma vontade muito forte de comprar, seja altruísta.

Elizabeth Dunn, professora de psicologia da Universidade de British Columbia, no Canadá, estuda a ligação entre felicidade e dinheiro.

Ela realizou um estudo no país e em Uganda pelo qual deu uma pequena quantidade de dinheiro aos participantes. Em seguida, pediu à metade do grupo para gastá-la consigo mesma, enquanto os outros deveriam gastar com alguma outra coisa.

Aqueles que compraram algo para outra pessoa tinham um sentimento de bem-estar mais duradouro, revelou a pesquisa, comparado com aqueles que gastaram o dinheiro consigo mesmos.

“As pessoas se sentiram significativamente mais felizes quando olharam para trás e refletiram sobre o momento em que gastaram dinheiro com os outros, ao invés delas mesmas”, disse Dunn em uma palestra recente.

Por isso, da próxima vez que você sentir a necessidade de comprar algo impulsivamente, reflita sobre alguma coisa pela qual você se sinta agradecido; se isso não funcionar, considere presentear outra pessoa.

Os benefícios decorrentes dessas ações podem ser um passo rumo ao melhor autocontrole.

“Quanto mais você se sentir agradecido em seu dia a dia”, diz DeSteno, “mais preparado você vai estar para ter maior controle e resistir a essas tentações quando elas aparecerem.”

 

Fonte: BBC

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